segunda-feira, 27 de setembro de 2021

[Crônica] Viver, flertar e outras problemáticas acerca do indivíduo


"Nascer já é um grande passo para alguém inexperiente em viver. Flertar, então..."





        À esperança de encontrar alguém que se interesse por homens feios-magros-altos-carecocabeludos, é que decidi aderir à modernidade, ao ir à sessão de relacionamentos da lojinha virtual de aplicativos e baixar alguns como: Tinder, Happn e Badoo - este desisti no primeiro uso.  O flerte, considerando-o como arte, é quase tão dificultoso quanto levar dois anos pintando uma capela, pois não há um mecenas ali, disposto a te pagar. Começando pelo Happn, ao abri-lo, encontro-me com a primeira problemática: a 'selfie'. Como fazer um feio carecocabeludo transparecer-se natural mesmo em ângulos longitudinais destinados a valorizar algo naquela face hedionda? Enfim, decidi-me que pouca luz me trará a beleza que preciso para um "match". 


        Mas a arte de dar "match" vai além de uma bela foto; tantos homens feios que passaram ao longo da história dando "matches" com as mais belas damas, e sem a ajuda de um aplicativo: Serge Gainsbourg, julio Sosa, Julio Iglesias... Preciso, sim, de algo mais! E tenho. A primeira cartada está na parte de escolher uma música que me represente, e julguei que "Chicago, Damn", da Bobbi Hemphrey, me fosse trazer alguns olhares curiosos; ademais, minha descrição tem uma frase minuciosa: "Nem vem de garfo, que hoje é dia de sopa". Que mulher não se atrai por um apreciador de Wilson Simonal, autêntico subgalã? 


        E foi inspirado nesses caras gostosos, porém feios pra caralho, é que fui tateando nesse muito obscuro mundo do flerte ‘online’. Sendo pior que presencial, ambiente em que aprendi a duras penas encantar ao menos 27 regiões do corpo feminino, encantar damas ‘online’ traz a insegurança do tempo. Ao que levaria no máximo 2 horas para saber se ela está a fim, usar um app de relacionamento, onde nem mesmo pode-se ver se a pessoa está ou não ‘online’, se viu o ou não sua mensagem, faz o périplo durar, quanto menos, uma eternidade. 


        "Vamos ao parque tal", disse ela. Peraí, funcionou? Tá bom, tá bom, os garanhões anciãos da arte de declinar vaginas ficaram orgulhosos. Pergunto, então, pra marcar? Peço o whatsapp dela, porque "o papo flui melhor"? Fiz algo parecido, mas um tanto menos machista: além de dizer que pelo whatsapp a conversa se vai melhor, disse que poderíamos ir ao parque quando ela estivesse livre e confortável. Agora é rezar cinco vezes "je t'aime, moi non plus" para ver no que dá. Aí vou esperar para... Opa! Um "Match" no Tinder. Será se pergunto sobre o gatinho dela?

domingo, 6 de setembro de 2020

No Brasil


"Yes, 'n' how many deaths will it take 'til he knows
That too many people have died?"
    Blowin' The Wind, Bob Dylan





No Brasil, de cada 1 milhão de pessoas
479 morrem de Covid-19

No Brasil,
de cada 1 milhão de pessoas
479 morrem de Covid-19

No Brasil
de cada 1 milhão de pessoas
479
morrem
de Covid-19

De Covid-19
de Covid-19
de Covid-19
de Covid-19

fonte:
https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/08/10/brasil-tem-uma-das-piores-taxas-de-mortes-por-milhao-pela-covid-especialistas-dizem-que-comparacao-em-meio-a-pandemia-porem-nao-e-a-ideal.ghtml


    Este é uma releitura do poema de Ferreira Gullar (Poema Brasileiro), de 1962:

Poema Brasileiro Ferreira Gullar - 1962

No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

Antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade






  "Governo diz que país tem um dos menores índices, mas em um mês e meio o Brasil passou do 17º pior índice para o 11º entre 167 nações. Especialistas afirmam que comparações que consideram a população são importantes para estudar a evolução e a distribuição da doença, mas que, durante a pandemia, vários fatores precisam ser levados em conta ao fazer tal cálculo, como o estágio da doença, o tamanho e o perfil etário da população, o nível de testagem, entre outros." trecho da matéria do G1, feita por Felipe Grandin, Laís Modelli, Carolina Dantas e Thiago Reis, no dia 10/08/2020 (20h16)
  Mas, enfim, ainda são 479 pessoas por milhão; ou eram, já que o número atual de mortos é de 126 mil (09/09/2020).

domingo, 29 de março de 2020

Pondo em prática o que aprendi com o Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade






     Minha família noutro canto, sempre viveram longe de mim. Minha mãe, cosendo um doce que alguém jamais saberia fazê-lo de igual forma. Eu, menino sozinho com suas tralhas amontoadas, as quais improvisava para criar um set de filmagem ao mesmo tempo em que lia uma coletânea de poemas: Simplesmente Drummond, o título dizia. 
   Havia, naquelas poesias, palavras que ditaram o rumo da minha vida, algo que eu jamais perceberia: Aprendi a não rimar sono com outono, e sim, com carne, porque todas  as palavras me convém. Aprendi que conhecer pouco pode me trazer muito se eu me esforçar, afinal, mesmo que eu não tenha visto o mar, eu vi a lagoa, que também é grande, calma, brilha e muda de cores. 
    Simplesmtente Drummond me descrevia com o poema Brincar na Rua, havia impaciência naquele autor, que por acaso poderia ser eu:
"O Mundo não é mais, depois das cinco?
É tarde.
A sombra me proíbe
Amanhã, mesma coisa.
Sempre tarde antes de ser tarde."

     Aprendi que a educação não se trata prender os outros às suas normas, com o poema do professor que diminuiu o tom de voz para que o aluno consiga dormir. Aprendi que preciso de tempo para criar: 
"Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha via inteira"
      E, com o poema de sete faces, aprendi sobre uma vida inteira. Vi naqueles versos a vida inteira de um poeta até o momento em que escrevia. A poesia a seguir foi criada por mim, que há um tempinho tenho matutado o Poema de Sete Faces, e vendo sua liberdade, resolvi me libertar, não sei se Drummond ficaria orgulhoso, mas sei que ele me perdoaria:


A Lágrima
 
Não venho trazer sofismos,
muito menos demonstrações de altruísmo.
Não quero ocupar seu tempo
e nem te trazer tormento.
Mas considere que
as linhas que me restam
apenas verdades atestam.

Foi num dia comum:
casa metrô trabalho
trabalho metrô casa,
Que o piso do metrô foi atingido
pela lágrima da moça que estava ao meu lado.

Ela não queria dizer,
eu, que sou fraco,
muito queria saber
qual o teor naquela lástima,
e por que havia beleza naquela única lágrima.

Seu apelido era Luz,
"que veio de Luzia,
da Terra de Andaluzia!", dizia.

Algo nela me instigava,
Segurava uma lauda,
Já sequelada
pela ansiedade de suas mãos.
"Faço jornalismo.", disse,
"Consegui o emprego na redação que tanto queria."
Enquanto dizia
Suas lágrimas fizeram curva
Em um enorme sorriso de alegria.

Fiquei ainda mais intrigado,
Pelos breves e frequentes
Sorrisos que a mim ela trazia.
"Não são lágrimas de tristeza, são lágrimas alegria", dizia.

O metrô para,
em um piscar a multidão toma tudo,
desapareceu
a moça das lágrimas de alegria.
Confesso que nunca vi alguém sorrir
ao mesmo tempo em que uma lágrima
começa a sair.

Em casa,
na mesa de jantar,
Família reunida para a ceia de natal,
minha mente estava noutro canto,
pensava na moça tal.

A que se comprazia,
com as tais lágrimas de alegria?
Não parecia felicidade,
talvez não tenha falado a verdade,
era jovem,
estava na flor da idade.

Moças da idade dela
não se deixam aborrecer,
vivem como tem que se viver,
encantam quem tem que encantar
e vivem de sentimentos a compartilhar.

Talvez seja isso,
a falta de experiência em sentir
deve ter confundido seus sentimentos,
o que a fez chorar
Ao invés de rir.

E já é outro dia,
ainda não paro de pensar nela,
que agonia!
Aquela moça
com suas malditas
lágrimas de alegria.





Veja esse e outros poemas em "À vida e aos minutos", minha coletânea de poemas em desenvolvimento no Wattpad. Clique aqui e veja.

sábado, 28 de março de 2020