março 2020

domingo, 29 de março de 2020

Pondo em prática o que aprendi com o Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade






     Minha família noutro canto, sempre viveram longe de mim. Minha mãe, cosendo um doce que alguém jamais saberia fazê-lo de igual forma. Eu, menino sozinho com suas tralhas amontoadas, as quais improvisava para criar um set de filmagem ao mesmo tempo em que lia uma coletânea de poemas: Simplesmente Drummond, o título dizia. 
   Havia, naquelas poesias, palavras que ditaram o rumo da minha vida, algo que eu jamais perceberia: Aprendi a não rimar sono com outono, e sim, com carne, porque todas  as palavras me convém. Aprendi que conhecer pouco pode me trazer muito se eu me esforçar, afinal, mesmo que eu não tenha visto o mar, eu vi a lagoa, que também é grande, calma, brilha e muda de cores. 
    Simplesmtente Drummond me descrevia com o poema Brincar na Rua, havia impaciência naquele autor, que por acaso poderia ser eu:
"O Mundo não é mais, depois das cinco?
É tarde.
A sombra me proíbe
Amanhã, mesma coisa.
Sempre tarde antes de ser tarde."

     Aprendi que a educação não se trata prender os outros às suas normas, com o poema do professor que diminuiu o tom de voz para que o aluno consiga dormir. Aprendi que preciso de tempo para criar: 
"Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha via inteira"
      E, com o poema de sete faces, aprendi sobre uma vida inteira. Vi naqueles versos a vida inteira de um poeta até o momento em que escrevia. A poesia a seguir foi criada por mim, que há um tempinho tenho matutado o Poema de Sete Faces, e vendo sua liberdade, resolvi me libertar, não sei se Drummond ficaria orgulhoso, mas sei que ele me perdoaria:


A Lágrima
 
Não venho trazer sofismos,
muito menos demonstrações de altruísmo.
Não quero ocupar seu tempo
e nem te trazer tormento.
Mas considere que
as linhas que me restam
apenas verdades atestam.

Foi num dia comum:
casa metrô trabalho
trabalho metrô casa,
Que o piso do metrô foi atingido
pela lágrima da moça que estava ao meu lado.

Ela não queria dizer,
eu, que sou fraco,
muito queria saber
qual o teor naquela lástima,
e por que havia beleza naquela única lágrima.

Seu apelido era Luz,
"que veio de Luzia,
da Terra de Andaluzia!", dizia.

Algo nela me instigava,
Segurava uma lauda,
Já sequelada
pela ansiedade de suas mãos.
"Faço jornalismo.", disse,
"Consegui o emprego na redação que tanto queria."
Enquanto dizia
Suas lágrimas fizeram curva
Em um enorme sorriso de alegria.

Fiquei ainda mais intrigado,
Pelos breves e frequentes
Sorrisos que a mim ela trazia.
"Não são lágrimas de tristeza, são lágrimas alegria", dizia.

O metrô para,
em um piscar a multidão toma tudo,
desapareceu
a moça das lágrimas de alegria.
Confesso que nunca vi alguém sorrir
ao mesmo tempo em que uma lágrima
começa a sair.

Em casa,
na mesa de jantar,
Família reunida para a ceia de natal,
minha mente estava noutro canto,
pensava na moça tal.

A que se comprazia,
com as tais lágrimas de alegria?
Não parecia felicidade,
talvez não tenha falado a verdade,
era jovem,
estava na flor da idade.

Moças da idade dela
não se deixam aborrecer,
vivem como tem que se viver,
encantam quem tem que encantar
e vivem de sentimentos a compartilhar.

Talvez seja isso,
a falta de experiência em sentir
deve ter confundido seus sentimentos,
o que a fez chorar
Ao invés de rir.

E já é outro dia,
ainda não paro de pensar nela,
que agonia!
Aquela moça
com suas malditas
lágrimas de alegria.





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sábado, 28 de março de 2020